Após um ano de espera a Netflix liberou no 17/6 a 4ª Temporada de Orange is the New Black. Uma das pioneiras, essa é sem dúvidas uma das séries originais de maior sucesso da Netflix. Nela acompanhamos o dia a dia das detentas da ala de segurança mínima da prisão de Litchfield. A princípio a história era focada na ex-patricinha Piper Chapman (Taylor Schilling), sua chegada na prisão e o que a levou até lá. Isso com a ajuda de flashbacks inseridos no decorrer de cada episódio. Piper foi presa dez anos após carregar uma mala de dinheiro pra sua ex-namorada traficante Alex Vause (Laura Prepon). Como o destino em séries de TV dá uma forcinha pra confusão, a moça encontra a ex na mesma prisão e terá que, além de pagar pelos erros do passado, lidar com eles bem à sua frente e sem chances de se esquivar.
Após três temporadas a série já se aprofundou para além da história de Piper, que, apesar de estar frequentemente em foco, dá espaço à trajetória das outras detentas e até mesmo a alguns dos funcionários da prisão, revelando suas histórias e motivações. É esse um dos motivos da profundidade da série, temos personagens bem desenvolvidas e complexas interagindo, o que torna a trama mais interessante. A 4ª Temporada é sem dúvida uma das mais bem construídas, tensas e comoventes e, pra quem já viu, certamente já deixa saudades e muita ansiedade pra 5ª Temporada.
Confira o trailer da 4ª Temporada:
Nessa temporada temos de cara um episódio sem nenhum flashback, algo que, se não me engano, nunca tinha ocorrido. E isso se repete em outros episódios e, também pela primeira vez, não temos nenhum flashback de Piper. Apesar de nova, a mudança no formato não causa estranheza em momento nenhum, uma vez que há várias coisas acontecendo na prisão e a história se foca nisso. Outro formato interessante é o episódio que ao invés de flashbacks acompanhamos uma das detentas após ser liberada e suas experiências também nos servem para revelar um pouco de seu passado e caráter, além de estar relacionado ao que acontece na prisão, formato que acredito que será recorrente nas próximas temporadas. Esse é um exemplo de como mais uma vez a série se renova a uma nova temporada, algo que já tinha comentado sobre a 3ª Temporada no post do Globo de Ouro desse ano.
Também temos uma grande renovação no elenco motivada pela debandada dos guardas na última temporada, contratação de veteranos de guerra para substituí-los, a transferência de um guarda da segurança máxima como chefe de segurança, o Agente Piscatela (Brad William Henke), e a chegada de várias novas detentas, o que dinamizou bastante a trama. A série já tinha incluído novos personagens anteriormente, sejam eles apenas detentas que nunca tinham recebido atenção, recém chegadas ou novos guardas. Nesse caso foi uma reviravolta na trama que trouxe esses novos personagens e tais reviravoltas tiveram consequências.
Uma das coisas que me incomodam em algumas séries é a sensação de que nada tem consequência, não importa o que aconteça, nossos personagens estarão sempre seguros, mesmo fazendo as maiores cagadas. Infelizmente foi essa sensação que tive assistindo a 3ª Temporada de OITNB. Mesmo gostando, ficou aquela sensação. Uma temporada relativamente leve. Na 4ª Temporada temos o clima de tensão de volta à prisão, algo bem diferente da rigidez forçada dos guardas e o foda-se ligado do Sr. Caputo (Nick Sandow) que tivemos na 3ª.
O clima de tensão se estabelece logo no primeiro episódio, onde duas detentas passam a esconder um segredo em comum que pode levá-las à segurança máxima durante muitos anos a mais de detenção. Tal segredo toma proporções maiores a cada episódio, até culminar num dos ápices da temporada junto a outros acontecimentos importantes, exemplo da trama coesa, progressiva e bem construída dessa temporada.
Outro ponto de tensão é Piper, e seu negócio de venda de calcinhas, tendo que lidar com as consequências de se estar no poder dentro da prisão, algo que toma proporções inimagináveis, mais uma vez provando que ela não está totalmente preparada ou no controle das situações em que se mete na prisão. Mas essa é a essência da personagem, que chega em um momento a prometer que vai ficar longe de confusões, descumprindo a promessa logo em seguida. O interessante é que mais uma vez sentimos pela segurança da personagem que, há algum tempo, se mostrava muito segura na prisão.
Atrelado a isso está a chegada dos novos guardas e as novas detentas à prisão. A superlotação logo começa a causar problemas, novas alianças são formadas e novas vilãs se revelam. O mesmo acontece com os novos guardas, uma vez praticamente amigos das detentas, agora são rígidos, impessoais e cruéis, uma crítica clara à relação de poder e empoderado, levando a ações até mesmo insanas.
Esse inclusive foi um tema recorrente nessa temporada, transtornos mentais, abordado de diferentes focos, maneiras e em diferentes personagens. Em dois episódios conhecemos um pouco mais das personagens Suzanne "Crazy Eyes" (a premiada Uzo Aduba) e Lolly Whitehill (Lory Peti, merecendo ser premiada). Essa última, há menos tempo na série, dá um show de interpretação e faz com que nos comovamos com a história de sua personagem e de como os papéis de criminoso e vítima podem se confundir quando tratamos desses casos, e ainda, de como o desfecho pode ser injusto pelo simples fato de fecharmos os olhos a tal questão.
Também conhecemos um pouco mais da história do Sr. Healy (Michael Harney, mais um show de interpretação) e as motivações que o levaram a trabalhar em Litchfield. Como já conhecemos (a Piper que o diga), os meios do personagem nem sempre são os mais justos, embora ele tenha convicção de que faz o bem pras detentas no fim. Pela primeira vez realmente me comovi por ele, mesmo sabendo que suas ações sejam sempre motivadas por uma falta de realização pessoal. Ainda temos a presença dos veteranos de guerra, cujas ações demonstram claramente o quão fragilizadas e até mesmo desestabilizadas mentalmente essas pessoas podem se tornar pela experiência da guerra. Ou a guerra aflora e permite que esse lado dos seres humanos?
Além do clima tenso, a série continua com o seu tom de humor ácido e de crítica bem humorada. É hilário ver a convivência de duas detentas de religiões diferentes no mesmo cubículo, por exemplo. Uma judia e outra muçulmana, elas vivem diversas situações alusivas ao conflito dessas duas religiões na região da Palestina. Outro é o de uma prisioneira, que trabalhando numa loja de departamentos, dita vários itens do cotidianos ao conferir uma nota fiscal e em meio a esses uma metralhadora semi-automática, tudo com a máxima naturalidade, clara crítica ao sistema estado-unidense de compra e posse de armas, outro tema recorrente na temporada. São várias as situações cotidianas que levam esse tom cômico e que fazem com que nos identifiquemos com a trama, mesmo sem estar numa prisão.
Outras situações engraçadas envolvem a recém chegada, detenta celebridade e cheia de regalias, Judi King (Blair Brown), e todos os que se relacionam com ela. A personagem tem uma dinâmica com os demais personagens que se torna um dos principais alívios cômicos da temporada. Destacam-se ainda Crazy Eyes e sua "relação" com Maureen Kukudio (Emely Althaus) e a procura por uma noite de sono em paz de Red (Kate Mulgrew), dentre outras.
Em meio à dramas e comédias, essa temporada de OITNB é sem dúvidas uma das melhores, resultado de uma trama bem construída, profundidade dos personagens e relação que eles já têm com o público, tudo aliado ao bom texto e interpretações impecáveis. É incrível ver como certos atores passam pelo drama e comédia com uma naturalidade chapliniana incontestável, que nos faz rir, se emocionar e refletir em série!
Já sou órfão de OITNB, que venham as maratonas de "reprise". E que a 5ª Temporada chegue logo, tão boa quanto essa.
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| Adorei! |


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